Imagine viver mais de um século e nessa altura da vida descobrir que sempre comemorou o próprio aniversário na data errada. Foi o que aconteceu com João Amaro, morador de Maringá de 103 anos de idade.
Seu João diz ter nascido no dia 22 de outubro de 1922 e celebra a data com uma grande festa familiar desde que completou 100 anos de idade. Só que na última semana, a família descobriu que o patriarca, na verdade, nasceu no dia 30 de setembro de 1922, sendo, então, três semanas mais novo.
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— Desde que eu me entendo por gente ele conta para nós que foi registrado errado. Que ele nasceu no dia 22 de outubro, e não no dia 30 de setembro, que o pai dele registrou ele errado. Então a gente vinha comemorando os aniversários dele no dia 22 — disse a neta Sabrina.
A história da descoberta começou quando Seu João e dois filhos foram ao banco para regularizar o cartão da aposentadoria dele. Por não ter as impressões digitais registradas, Seu João precisaria atualizar toda a sua documentação pessoal, emitida pela última vez em 1991 e que não correspondia à sua aparência atual.
O curioso é que o centenário possui dois RGs, nos quais constam a data de nascimento como 30 de setembro de 1922. Já o CPF registra o nascimento em 22 de outubro de 1922.


Para atualizar a carteira de identidade, Seu João precisava de uma certidão de casamento ou nascimento, mas ele não tinha nenhuma. A família recorreu à neta Sabrina, funcionária de um cartório em Maringá, que realizou uma busca para tirar a segunda via da certidão de casamento do avô. Sabrina encontrou o documento em um cartório de Cabo Verde (MG), cidade natal de João Amaro. No documento, constava que Seu João nasceu, de fato, no dia 30 de setembro de 1922.
— Nunca fomos atrás dos documentos porque nunca foi preciso, mas meu pai sempre disse que a data de 30 de setembro era o aniversário da mãe dele, e que ele havia sido registrado errado — explicou o filho mais velho, José Antônio, de 77 anos.
Em contato com o cartório de Cabo Verde, Sabrina descobriu que a certidão de nascimento do avô está no “arquivo morto” do local, em um livro centenário, escrito à mão. Ela solicitou uma cópia e descreveu à reportagem a primeira parte do documento, registrado pelo pai Antônio Amaro Fernandes:
“Hoje, 1 de outubro de 1922, eu, Antônio, compareço neste cartório para efetuar o registro de João, nascido aos 30 de setembro de 1922, filho de Felisbina Rosa de Souza”.

Data de nascimento do João Amaro na certidão de casamento corresponde a 30 de setembro de 1922
De acordo com a família, a explicação para a confusão pode se dar pela participação de Seu João na Segunda Guerra Mundial. Na época com 20 anos de idade, João serviu na cavalaria do 11° Regimento de Infantaria (RI) no interior de Minas Gerais e é possível que lá tenham emitido outra via de seus documentos, alterando sua data de nascimento. Outra hipótese é que esse novo documento tenha sido emitido no dia 22 de outubro, ocasionando o mal-entendido.
Como se não bastasse, Seu João conta até hoje aos familiares que sua mãe o deu o nome de João Benedito Amaro, mas ele “perdeu” o nome do meio, que não consta nos documentos atuais. A confusão também pode ter surgido no período de alistamento no exército. Vale ressaltar que na certidão de nascimento dele consta apenas o nome “João”, como era de costume nos registros da época.

Foto: Arquivo familiar
Agora, a família Amaro espera que o mal-entendido não prejudique Seu João no recebimento de sua aposentadoria, uma vez que as informações dos documentos precisarão ser alteradas.
De todo modo, João Amaro completa 104 anos de idade em 2026, agora um pouco mais cedo. O mineiro de origem faz parte de um seleto grupo de 47 pessoas com 100 anos ou mais que vivem em Maringá, representando 0,01% da população da cidade, de acordo com o Censo 2022 do IBGE. No Brasil, são apenas 37.814 pessoas nesta faixa etária.
Conheça João Amaro
Seu João nasceu em Cabo Verde (MG), onde casou com Rita de Souza Freire, em 1947, e morou até os 30 anos de idade. Foi quando se mudou para o Paraná, passando por diversas cidades ao longo de três décadas: Bom Sucesso, Ubiratã, Jesuítas e Iracema do Oeste – nesta última, Seu João morou por 17 anos.
Em 1985, se mudou para Cerejeiras (RO) com um dos filhos e, por lá, Rita contraiu malária três vezes, mas sobreviveu. O casal se mudou para Limeira (SP) no início da década de 1990. Nesse período, em visita ao filho José Antônio, que morava em Maringá, Seu João decidiu morar na Cidade Canção, chegando em 1994 e permanecendo até hoje.
Desde o falecimento da esposa Rita, em 2014, devido a um câncer de intestino, João Amaro mora com os filhos residentes de Maringá, que revezam os cuidados. Apesar das dificuldades para enxergar e ouvir que enfrenta atualmente, Seu João ainda tem certa autonomia e nunca passou por doenças ou complicações de saúde mais graves.
Torcedor do Santos que viu Pelé nascer e morrer, João tem 14 filhos, com 11 ainda vivos, 27 netos, 35 bisnetos e 4 trinetos.
O tempo na Segunda Guerra Mundial
Convocado para servir o exército aos 21 anos de idade, João Amaro seguiu para Três Corações (MG) para fazer parte da cavalaria. Segundo os filhos, ele tinha habilidade com cavalos e recebia apreço dos oficiais militares pelo bom serviço.
O Brasil entrou na Segunda Guerra Mundial em 1942 e a Força Expedicionária Brasileira (FEB) começou a enviar soldados à Europa em 1944. Mais de 25 mil “pracinhas” navegaram até a Itália, onde contribuíram para a vitória dos Aliados em 1945. As embarcações saíam, principalmente, do Rio de Janeiro. Foi lá que João realizou treinamentos e simulou batalhas nas últimas fases de preparação para os conflitos, cavando trincheiras e atirando com metralhadoras.
E ele “escapou” de embarcar para a Itália por três vezes. O patriarca conta à família que era preterido pelos demais por conta da altura (1,61m) e era “protegido” pelos oficiais da cavalaria, que o impediam de subir nos navios. Após o fim da guerra, João Amaro deixou o exército por não querer seguir carreira militar.




