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Referência nacional em urbanismo, Maringá já teve favelas; pesquisa revela onde elas ficavam

Hoje reconhecida nacionalmente pelo planejamento urbano, qualidade de vida e desenvolvimento econômico, Maringá também conviveu, nas primeiras décadas de sua história, com problemas sociais que ficaram praticamente apagados da memória coletiva. Uma pesquisa histórica mostra que, entre as décadas de 1950 e 1970, o município teve favelas, cortiços e outras formas de ocupação irregular, realidade pouco conhecida por boa parte da população.

Fotos de Referência nacional em urbanismo, Maringá já teve favelas; pesquisa revela onde elas ficavam
Foto: Maringá Histórica | Reprodução

O tema é abordado no vídeo publicado pelo documentarista, doutorando em História e idealizador do projeto Maringá Histórica, Miguel Fernando. No material, ele reúne documentos, reportagens da época, pesquisas acadêmicas e relatos históricos para reconstruir um capítulo importante da formação da cidade.

Segundo o pesquisador, embora Maringá tenha sido planejada desde sua origem, o crescimento acelerado da população e a ausência de políticas públicas voltadas à habitação favoreceram o surgimento de ocupações precárias.

Cidade planejada, mas nem todos conseguiram morar nela

O projeto urbano original de Maringá previa uma ocupação organizada, com um núcleo central cercado por bairros e uma área destinada à indústria, acompanhada por uma vila operária. Na prática, porém, a realidade foi diferente para milhares de pessoas que chegaram à cidade em busca de oportunidades durante o ciclo de expansão agrícola do Norte do Paraná.

Embora a Companhia de Terras Norte do Paraná oferecesse facilidades para aquisição de terrenos, elas não alcançavam toda a população de baixa renda. Como consequência, muitas famílias recém-chegadas não conseguiam comprar um lote ou encontrar moradia.

Fotos de Referência nacional em urbanismo, Maringá já teve favelas; pesquisa revela onde elas ficavam

Foto: Maringá Histórica | Reprodução

Diversos relatos históricos apontam que pessoas permaneciam durante dias nas proximidades da estação ferroviária aguardando emprego. Enquanto muitos conseguiam trabalho nas fazendas da região, outros acabavam vivendo em barracos improvisados.

Segundo Miguel Fernando, também existia uma prática conhecida como “higienização social”, na qual pessoas sem perspectivas de trabalho recebiam passagens para seguir viagem até outras cidades ao longo da ferrovia.

Pesquisa identificou quatro favelas e 11 cortiços em Maringá

Uma das principais revelações apresentadas no vídeo é o levantamento que identificou, entre 1947 e 1964, a existência de:

  • quatro favelas;
  • onze cortiços espalhados por diferentes regiões da cidade.

As favelas mapeadas foram:

  • Favela Cleópatra;
  • Favela Bosque;
  • Favela Santa Maria Goretti;
  • Favela localizada na Vila Vardelina, na região do Mandacaru.

Além delas, diversos cortiços funcionavam em áreas como a Vila Operária, Maringá Velho e Zona 7.

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Nesses locais, famílias inteiras dividiam pequenos cômodos ou barracos improvisados, normalmente construídos com restos de madeira provenientes das serrarias. As moradias possuíam piso de terra batida e praticamente não contavam com infraestrutura básica. Relatos históricos citados por Miguel Fernando mostram que algumas casas abrigavam até nove pessoas. Em determinados casos, crianças morreram por falta de assistência médica.

Favela Cleópatra ficou entre as mais conhecidas

Entre todas as ocupações irregulares, a Favela Cleópatra tornou-se uma das mais conhecidas da história de Maringá. Ela estava localizada ao lado do Cemitério Municipal, próxima da Avenida Juscelino Kubitschek, em uma área que posteriormente deu origem à Vila Cleópatra.

Já a Favela Bosque ocupava uma região próxima ao atual Parque do Ingá, nas imediações do antigo lixão municipal e do matadouro. A Favela Santa Maria Gorete surgiu em um terreno onde seria construído um hospital, na esquina das avenidas Paraná e Colombo. Como a obra nunca saiu do papel, a área acabou sendo ocupada.

Processo de desfavelização gerou conflitos

No início da década de 1960, a Prefeitura iniciou ações para remover as ocupações irregulares. Segundo o levantamento apresentado por Miguel Fernando, inicialmente não existia uma política habitacional estruturada para atender as famílias removidas.

Moradores relataram que, após notificações da prefeitura, máquinas começaram a demolir barracos. Em alguns momentos, houve resistência da população, que chegou a impedir o avanço das motoniveladoras e entrou em confronto com funcionários públicos. Na época, o então vereador Bonifácio Martins e o bispo Dom Jaime Luiz Coelho defenderam os moradores e passaram a pressionar por soluções que envolvessem políticas públicas de habitação.

Famílias foram levadas para outras cidades e novos bairros

Parte dos moradores foi incentivada a deixar Maringá e seguir para municípios vizinhos, como Sarandi e Mandaguaçu. Outras famílias receberam proposta para morar no então distante Conjunto Ney Braga, opção que muitos recusaram por causa da distância até o centro e da falta de infraestrutura urbana.

Posteriormente, iniciativas sociais lideradas por Dom Jaime Luiz Coelho contribuíram para a criação do Núcleo Social Papa João XXIII, onde começaram a ser construídas moradias populares com apoio internacional.

Na década de 1970, políticas habitacionais ganharam maior força com a implantação de conjuntos residenciais financiados pelo Banco Nacional da Habitação (BNH), entre eles o Conjunto Residencial Inocente Vila Nova Júnior, entregue com mais de mil casas populares.

Cidade se transformou em referência nacional

Ao longo das décadas seguintes, Maringá consolidou um dos processos de urbanização mais reconhecidos do Brasil. Atualmente, o município é frequentemente citado como referência em planejamento urbano, arborização, qualidade de vida e desenvolvimento econômico.

No entanto, conforme destaca Miguel Fernando, conhecer esse passado ajuda a compreender que o crescimento da cidade também foi marcado por desigualdades sociais, falta de moradia e desafios enfrentados por milhares de famílias. Segundo o pesquisador, preservar essa memória é fundamental para compreender a formação de Maringá e reforçar a importância de políticas públicas voltadas à habitação e à redução das desigualdades sociais.

Confira o vídeo completo:

Via GMC-online